Sábado, 26 de Maio de 2012

Antagónico

Da última vez que voei em direcção a Faro, ia de coração cheio.

Cheio de paz. E felicidade. E luz. E todos os sentimentos bons que eu e vocês podemos imaginar.

Ia tão cheia de vida, que pensei que podia morrer.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Sai uma destas para a mesa, faxabôr!



Se alguém do hospital descobre este blog, os boatos relativos à minha orientação sexual ganham ainda mais sentido.

E eu estou tão preocupada com isso que vou ali chorar um bocadinho e tomar anti-depressivos.

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Em Portimão

Muitos doentes no serviço.
Acabo a passagem de turno às nove da manhã.
Trabalhei dezassete horas.

Saio do hospital e é dia. O sol brilha. Não está muito calor.
Decido ir à praia, apesar de me sentir gorda.
Vou à Sport Zone comprar um bikini. Estou efectivamente gorda.
Mordo o lábio para não chorar. Amuo.
Pago trinta euros por um bikini com muito pano.

Vou ao Continente fazer compras para a semana.
Tomo o pequeno-almoço em casa. Pão com sementes. Queijo. Maçã. Café.

Olho pela janela enquanto como. Esforço-me por comer devagar.
Estou cansada, com sonos em atraso.
E feliz.

O meu trabalho deixa-me muito feliz.
O meu trabalho tem sido a minha salvação.
Sinto-me burra muitas vezes. E há um médico - malcriado! - que faz questão de me lembrar isso mesmo, cada vez que visita um doente. Eu, que até mantenho a calma e tenho paciência inesgotável, estive a um milímetro de o mandar p'ró caralho. E também não sou de asneiras...

Bem.
A minha cabeça anda ocupada. Com traçados de ECG, interpretação de análises, medicação que nem sei pronunciar o nome.
Enquanto isso...

Os espelhos já não são tão repugnantes. E a balança do serviço... Já estive mais longe de subir para cima dela.

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Era um dia de sol, íamos no carro, tu de calças de ganga e casaco azul.
Cantavas. A tua mão no meu joelho.
E aquela luz.

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Lá porque não escrevo

Não quer dizer que não tenha nada a dizer.

A minha vida deu mais uma volta. Mais uma, só isso.
E eu estou em paz. Com o coração a rebentar de felicidade e sem saber o que fazer com isto tudo.
Tenho dificuldade em organizar as ideias. Passá-las para o papel.
Quero escolher as palavras, mas elas perdem-se no meio da euforia.

Tenho amor incondicional dentro de mim.
Sinto-me nem-sei-bem-que-palavra-usar. E só tenho medo que isto acabe rápido.
E eu volte aos dias em que fui sombra. Aos dias em que evitei espelhos. Aos dias em que guerreei comigo mesma e estive prestes-prestes a perder a batalha.
Às vezes, até me pergunto se mereço esta paz, por fim.

No outro dia lembrei-me do ano em que fui à Zambujeira do Mar. E vi o David Guetta.
E me emocionei profundamente com música de discoteca, lasers, robôts e pessoas com o telemóvel a brilhar no escuro.

Esta música faz-me voar :)



Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Sem título

Não costumo referir nomes no meu blog.
Falo muitas vezes dos meus doentes e, às vezes, questiono-me sobre o sigilo profissional que me compete.
A maior parte das vezes não me sinto culpada. Até porque, para quem está fora do meu mundo, é difícil identificar as pessoas em questão.
E, além disso, o meu blog é lido por dez pessoas, se tanto.

Vou abrir aqui um parênteses.
Vou falar da A. outra vez.
O nome dela é Alcinda.
Vocês não a conhecem. Provavelmente nem conseguem pintar os cenários. Nem os acham engraçados.
Mas a A., com o seu feitio difícil, fez-me sentir muito muito especial.

Hoje despedi-me dela.

- Vou trabalhar para o Sul, Alcinda.
- Ai vais? Pagam-te bem, ao menos?
- Mais ou menos. Mas é um hospital, sabes. Vou aprender coisas novas...
- Se eu fosse rica, pagava-te para estares sempre comigo.
- Ui, fartavas-te logo de mim - a disfarçar a emoção.
- Sabes, vou ter saudades tuas, filha.
- E eu Alcinda, e eu... De me rir contigo.
- De te rires comigo? Que-graça-que-te-acho-cara-de-tacho.
- Alcinda... Um dia escrevo um livro com as coisas que tu me dizes.
- Ó, hás-de te lembrar muito.
Mal ela sabe que me lembro. E escrevo um livro, sim. De memórias.


Eram onze e meia. Hora a que os doentes dependentes comem. Os outros é ao meio dia.
Hoje, a Alcinda queria-porque-queria comer mais cedo.
As auxiliares da cantina não deixaram.
Barafustou e, como é óbvio, foi ignorada.

- Deixa lá Alcinda. Ficas aqui de treta comigo. Meia hora passa num instante.
- Ó, 'tou-farta-disto-rais-parta-esta-merda...
- Olha, 'tou aqui a pensar... Quando eu chegar lá baixo mando-te um postal, pode ser?
- Manda, manda. Ainda vou lá passar férias contigo.
- Que maravilha - sabendo perfeitamente que é impossível - e vamos à praia juntas e tudo.
Ela riu-se. Depois, falou meia hora da vida dela em Lisboa.

- Pronto Alcinda, é meio dia. Hora da bucha. Vamos?


Braços dados, eu a acompanhá-la devagarinho.
Saio da cantina. O Sr. V. chama-me.
- Menina, eu não sei o que você lhe faz. Se a menina não estivesse aqui ela armava já um trinta e um por causa do almoço. Aquela velha é tola, não sei como aguenta... Ela atina consigo, se não...
Sorri.
- Temos de ser uns para os outros. É preciso saber levá-la. Ter um bocadinho de paciência...


E é isto.
A Alcinda, que reclama com toda a gente, é insensível aos problemas dos outros, critica, pragueja, é conhecida como tola, ignorada pelo pessoal e pelos outros doentes, mal falada pelas costas... Esta mesma mulher conversou comigo meia hora, enquanto me fazia festinhas na perna. Fez-me rir, todos os dias em que me cruzei com ela. Dirigiu-me bocas foleiras, mas brindou-me com carinho com o qual não estava à espera.

A Alcinda fez-me acreditar que, apesar dos meus problemas de expressão, apesar das minhas dificuldades em passar para palavras o que me vai na cabeça, até tenho capacidades relacionais.
Coisa da qual eu já duvidei. Aliás, às vezes acredito ser sociopata. Ou autista.

Alcinda, que saudades já tenho sem ainda ter partido.